quinta-feira, 15 de abril de 2010

Estação Ferroviária de Chagas Dória em São João Del Rei/MG

José Antônio de Ávila Sacramento[1]


Ao amigo e confrade Benito Mussolini Grassi de Lelis, ex-ferroviário que ainda doa os seus muitos conhecimentos em favor da preservação de antigas locomotivas e estradas de ferro.


Antes de 1910 o bairro de Matosinhos, onde se localiza a Estação Ferroviária de Chagas Dória, era assistido pelos trens da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas) que ali paravam para a subida rápida de passageiros e uma breve movimentação de cargas. Não havia o prédio da atual estação. O ponto era mais conhecido como a “Parada do Matosinhos”.

Nos idos de 1908 a Câmara Municipal de São João del-Rei solicitou ao engenheiro Francisco Manuel Chagas Dória, então diretor da EFOM, a construção de um ramal que “partindo de Matosinhos, fosse ter às Águas Santas”, o conhecido balneário localizado no município de Tiradentes. O Ministério da Viação, face às necessidades apresentadas, autorizou a construção daquele ramal que, infelizmente, não existe mais. O nome de Chagas Dória fora dado à estação como homenagens prestadas pela Câmara de São João del-Rei e Imprensa da cidade ao então diretor da Rede.

A Estação de Chagas Dória, embora retocada por várias reformas paliativas e descaracterizantes, permanece abandonada. A originalidade dela foi bastante afetada por intervenções desastrosas. Ela perdeu a sua cobertura original, feita em chapa de ferro curvo e arremates floreados, importados da Europa no início do século XX. Alguns de seus elementos resistiram bravamente, a exemplo das mãos-francesas de ferro retorcido, desenhado em volutas; também ainda são originais alguns adornos de portas e uma admirável estrutura sustentada por pilares de trilhos que se encaixam e se curvam a guisa de mão-francesa. A sua romântica plataforma ainda conserva a lateral em pedra original, com cerca de meio metro de largura, compondo um belo arremate, originalmente em junta-seca (hoje rejuntado com cimento).

É um importante monumento de valor documental-histórico, tanto que é tombado em nível federal, pelo IPHAN. Atualmente não só a Estação de Chagas Dória, assim como também todo o acervo da antiga EFOM está sendo explorado para fins turísticos pela Ferrovia Centro Atlântica (FCA). A Estação de Chagas Dória e seu entorno estão sendo transformados em lixeira pública, motel a céu-aberto, local de encontro de consumidores de drogas, pouso de mendigos, além de invadido pelo mato.

Há alguns anos a ASMAT (Associação dos Moradores e Amigos do Grande Matosinhos) encomendou para a arquiteta Zuleica Teixeira Lombardi um projeto de restauração da Estação e reurbanização de seu entorno. O projeto foi doado para a Associação, mas, por falta de interesse público, por injunções políticas negativas e por falta de patrocinador, infelizmente não foi implantado. Assim, se teme que aquele patrimônio, a exemplo do que vem acontecendo com todo o Acervo Ferroviário de São João del-Rei, fique relegado ao abandono e se deteriore cada vez mais.

É uma pena que o Bairro de Matosinhos não possua mais o histórico Pavilhão (construído em 1913, em estilo mourisco, e demolido a dinamite, em 1938) e nem a bela e primitiva Igreja do Bom Jesus (construída a partir de 1770), patrimônio tombado nacionalmente[2] e que mesmo assim foi criminosamente demolido nos idos de 1970, através da articulação do afoito padre Jacinto Lovato e com a conivência do então bispo Delfim Ribeiro Guedes.

Restaram, para a memória do Bairro, dois decadentes monumentos: a Estação Ferroviária de Chagas Dória e o conjunto do Chafariz e Estátua da deusa Ceres. Se não cuidarmos deles, as futuras gerações os terão apenas como “retratos drummondianos”[3]nas paredes... Até quando?

Aspecto original da Estação Ferroviária de Chagas Dória (Arquivo: J.A. Ávila)

[1] Sócio efetivo, presidente do IHG de São João del-Rei por vários mandatos. É o titular da cadeira número 11, cujo patrono é Batista Caetano de Almeida.

[2] Tombamento efetivado pelo Processo nº 68-38/SPHAN, inscrito no Livro do Tombo de Belas Artes, Vol. 1, fls.2, em 04 de março de 1938.

[3] “Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!” – assim se referiu à cidade natal o poeta Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “Confidência do Itabirano”.


Artigo enviado por José Antônio de Ávila Sacramento em 15/04 por e-mail. Obrigado por sua colaboração.

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