quarta-feira, 26 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA por Vera Lúcia Ezagui

Dedico este conto ao meu querido pai – Fortunato Ezagui – engenheiro ferroviário, que investiu todo seu sonho e o seu ideal trabalhando por 45 anos para a antiga Rede Mineira de Viação, até aposentar-se já na Rede Ferroviária Federal. Vera Lúcia Ezagui – 04/12/2000

"Há homens que, no afã de externar e impor o poder que pensam ter, destroem as maravilhosas obras criadas por Deus, e também as de seus semelhantes, enquanto outros, extremamente sensíveis, se esforçam por perpetuá-las em suas memórias.

Era através da fumaça de seu charuto “Havana” que meu pai curtia o passado, percorrendo, nos trilhos de sua memória, os momentos felizes, e até mesmo os menos gratificantes, vividos nos vagões dos trens da antiga Rede Mineira de Viação.

Passando por pontes, avistava o destino que para cada um estava reservado.

Era o olhar curioso dos passageiros que descortinava a paisagem bucólica das fazendas plantadas no seio das Minas Gerais, e das extensas planícies repletas de vegetação típica desses locais.

Ah! quantas lembranças, quantos amores, quantas saudades, quantas dores!

Lá embaixo passava um rio de águas claras e refrescantes.

Nas curvas, o trem apitava, soltava fumaça: esbravejava.

Suas máquinas gemiam ao trepidar das elevações geométricas, na troca das linhas.

Seguia o curso em frente.

O dia passava calmo como passava a vida – nada de anormal acontecia.

Maria Fumaça... Ela deslizava garbosa nos trilhos, e quando chegava numa Estação freava suavemente, parava para deixar uns passageiros e receber os outros que ali a aguardavam, se preciso fosse, muitas e muitas horas.

Sacudia as máquinas, acendia seus enormes faróis, tomava prumo para partir e apitava: “pi-u-i... pi-u-i”

Engatava a marcha e prosseguia qual uma centopéia, girando o seu corpo a cada movimento necessário.

De vez em quando, acelerava. Contorcia-se nas curvas, atravessava as pontes, emergia e submergia nos túneis, com tamanha destreza, que se não prestassem atenção, os passageiros se esqueciam de descer nas suas cidadezinhas de desembarque.

O grande corcel de ferro prosseguia: - mais fumaça!

Quando detinha rapidamente o seu curso, parelhava com outros trens. Então apitava alegremente: “pi-u-i ... pi-u-i”

Mais campinas, mais fazendas, ... – êta bicharada!

Passa trem!

Ao chegar no seu derradeiro destino, os passageiros saltavam satisfeitos por mais uma tranqüila e sossegada viagem.

Maria Fumaça cumpria mais uma etapa e aí descansava: “xi-i-i-i-i...”

E o meu pai lacrimejava. Sempre chorava quando se lembrava ou contava os “causos” da Rede: Trens – de – Ferro.

Então, inconformado, desfilava suas lamentações:

- “Mais que diacho, por que é que querem acabar com a malha ferroviária e enterrar os trens?”

- “E a Maria Fumaça, que fim pretendem dar a ela?”

- “Quanto desperdício!”

- “Que falta de bom senso atirar no bueiro o transporte ferroviário, quando nas nações de primeiro mundo ele é o mais utilizado!”

- “Que país é esse que não dá importância ao transporte mais seguro e econômico, que desbrava suas entranhas mais longínquas e resgata a cultura regional de cada rincão, sem macular a natureza, como os resíduos fortes e poluentes da gasolina fazem!”

- “Será que o governo prefere gastar enormes somas com veículos rodoviários, enquanto o transporte férreo fica delegado às traças?”

- “Santa ignorância!”

- “Quando faltar combustível para alimentar a imensa frota de caminhões, será tarde demais porque já aniquilaram a malha ferroviária.

Mais fumaça!!!

Voltar a trás nem de ré, o trecho foi acidentado e pode causar mais problemas.

- “Gente, é preciso ter mais discernimento e equilíbrio para visualizar o que pode causar, num futuro próximo, o comprometimento da linha férrea.”

E ainda dizem “Estação Primeira.”

Marias Fumaças também são gente. Elas sofrem, gemem, apitam e se desgastam, mas no final precisam descansar em paz, e não serem exterminadas a FERRO e FOGO.

Quantas nuvens... muita fumaça!

Os carros que transportavam bois e gêneros alimentícios, agora transportam FERRO: MINÉRIO DE FERRO.

É a era da industrialização impondo regras e cassando sentimentos: não há mais vida nos trens, nem dentro, nem fora.

Enquanto percorriam os trechos onde visualizavam os povoados e apreciavam a vida pacata das pessoas dos lugarejos afastados, os passageiros se embeveciam com o cheiro inebriante do famoso café-com-leite, saído da cozinha do trem.

Maria Fumaça morreu. Seu último apito foi doloroso e fúnebre.

Muitas outras locomotivas não teriam resistência para enfrentar uma morte que embora já se alinhasse a curtos passos, prometia ser muito sofrida.

O baque fatal afetou a todos. Ninguém pode conter o choro que há muito comprimia o peito dos dedicados funcionários da Rede. Agora, Rede Ferroviária Federal.

Só o excesso das cargas que transportavam em seus vagões, seria suficiente para provocar o descarrilamento dos trilhos, e a conduziriam à morte acidental.

Papai chorava porque sabia quantas mágoas as Marias Fumaças carregavam...

As esperanças se esvaem a medida que o tempo passa e vai cerceando todas as chances de ver concretizado o nosso ideal.

Há muita chuva e muito nevoeiro.

Foram-se os trilhos e nem restaram os dormentes...

Hoje, raras são as viagens ornadas pela luz radiante do sol, aquecendo as manhãs do rural!

As estações da vida tinham o cheiro do manacá. E o café-com-leite e pão era servido no interior dos trens, aos passageiros sedentos de amenidades.

Quando havia um desvio a frente nos trilhos, o trem parava, e todos se esgueiravam pelas janelas, para apreciar a simplicidade de um tronco caído ou um pequeno animal morto há poucas horas.

Eram esses fatos que mantinham os passageiros distraídos e quebravam a rotina de trabalho do maquinista, pisando no freio suavemente, sob o trilho forrado de madeira de lei.

Logo, o trem apitava e a máquina se agitava.

Maria Fumaça é um tipicamente caipira e essencialmente mineiro.

J.K. bem que gostava de viajar de trem, que o diga a sua gente da pequena Diamantina.

Quem é que não gostava?

Se os trens ainda servissem à população, certamente estariam transportando desde os cantores de música de raiz, até as bandas de rock pesado, reunindo todos num abraço fraternal, tão grande, que, embalados pela música e congregados num só ideal, fariam com que essas viagens se tornassem o símbolo da união e o veículo de suas canções.

Haja “uai”! Haja rock!

As Marias Fumaças aposentadas descansam suas máquinas sabendo que realizaram os sonhos de muitos passageiros, alegrando e amenizando a dura vida do campo, com o simples passar da carruagem de ferro.

Olhando à sua volta, percebem que a falta de recursos, inerente à sua época, em nada diminuiu a sua alegria de viver, e nem se abateram com os acidentes, as paradas amiúde, e as cargas pesadas nos carros que transportavam bois e produtos rurais.

Nos trilhos pelos quais passaram, ora desativados, foram gravadas as marcas do reconhecimento do dever cumprido.

Deixando de lado as tendências de destruição, que hoje em dia envolvem as mentes e os corações de muitos homens, há de se registrar que ainda existem na consciência de poucos, as boas lembranças vividas dentro de um trem, e mais especialmente, dentro das Marias Fumaças, que mantiveram incólume o rastro de suas rodas, o som de seus apitos e o cheiro de sua fumaça.

Diante de tudo que passaram, elas almejavam uma digna parada final, com saudações, faixas de agradecimentos e uma despedida, porque não, com abraços fraternos, e tudo mais, regados com seu delicioso “café-com-pão”, “manteiga não”.

Lá vai a Maria Fumaça! Que trem mais “bão”!

Ela leva amor, leva união. Na volta traz outro amor e mais um irmão!

Oia, cumpadi, o trem vai passar.

Passou, tudo passou.

Passou a vontade de unir as pessoas, passou o encanto e a bondade. Passou o tempo do “cavalo de ferro” que pinoteava pelas estradas ferroviárias da vida, levando notícias boas e trazendo pessoas amigas.

Passou o tempo que era até chique viajar de trem.

Restam as reminiscências nos corações dos últimos saudosistas...

Papai não está mais aqui para chorar, lamentar e lembrar com saudades o seu passado de ferroviário, mas eu fico horas a meditar e a sentir o cheiro do delicioso café-com-leite e do pão-com-manteiga, o cheiro da fumaça do seu charuto Havana e da “sua” Maria Fumaça.

“Oia gente, já vem o trem: “Pi-u-i...pi-u-i...”

Café-com-pão, manteiga-não. Xi-i-i-i-i-i...”"

Texto enviado pelo nosso amigo Sr. Roberto Sbampato Pereira, ferroviário aposentado.

Um comentário:

  1. Fica ate muito dificil de se fazer um comentario, sendo que qualquer elogio que eu consiga fazer, seria pouco. Parabens. Meu nome é, Hermann Keppel, residente em Betim (onde um dia foi vfco)

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